I Concurso Petrobras CasaBloco de Artes Carnavalescas 2025

Há dias, Aurora mudara-se para a casa que o marido recebera de herança dos  avós: um sobrado amarelo pequeno, mas charmoso, quase tapado por um  enorme ipê cor de rosa plantado na calçada, erguido na rua de pedra que ficava  bem pertinho do centro histórico da cidade… Já conhecia o imóvel de muitos  outros carnavais, que se multiplicavam ao longo do tempo apagando as  memórias vívidas e específicas que tentava guardar desde a infância: agora, já  no auge de seus oitenta e seis anos, mesmo querendo guardar na íntegra o  sabor de horas de suor e alegria, lembra-se apenas de flashes vívidos das folias  mais marcantes.

“Tempo é bicho selvagem, que só aceita ser acariciado no momento em que se  aninha aos nossos braços, pedindo atenção: depois, foge e não volta não, filha”  – dizia à uma das netas, que escovava carinhosamente os seus cabelos e lhe  colocava brilhos antes de sair ao Carnaval.

Da janela, sentada em um banquinho baixo, ouvia o batuque dos foliões e  suspirava fundo: quando pequena, corria por aquelas ruas brincando a vida e o  Carnaval, acompanhada pelos pais. A mãe usava sempre a mesma roupa: um  vestido branco velho, que considerava o mais bonito do mundo e uma máscara  de plumas, que ganhara há décadas de seu padrinho, um carnavalesco. O pai,  geralmente carrancudo e preocupado, vinha sambando desde a ladeira da casa,  cantarolando bobeiras e fazendo-as sorrir. Aqueles eram alguns dos únicos  momentos felizes do ano, em que as dificuldades da pobreza e os riscos da vida se curvavam à alegria da folia.

Aproximando-se os batuques, Aurora olhou para as netas que se enfileiravam  para lhe dar um último beijo antes de ir às ruas, pegar o caminho do bloco.  Abençoou-as e contemplando-as, dedicou-se às memórias de seu grande grupo  de amigas e vizinhas, que, naquela idade, vestiam cores e observavam os  rapazes, entregando-se a sonhar amores efêmeros. Enquanto isso, sempre  recatada, cingia-se meramente à observação daquele fenômeno, sem coragem  de arranjar um namorico qualquer – tinha medo do pai, que sempre rodeava à  cantar suas marchinhas, mantendo um olho nela e outro nas serpentinas.

Até que, em uma dessas folias na rua de pedra, um homem alto, olhos gentis e bastante lábia convenceu-a do contrário: Paulo. Despistou o pai, fez com que  sonhasse acordada e se entregasse à efemeridade, tornando aquele Carnaval,  em particular, um espetáculo de sensações e brilhos. 

Passada a folia e dois breves encontros às escondidas, Paulo visitou sua casa  e pediu ao pai sua mão em casamento – e a lábia também funcionou com a  família, que passou a amá-lo assim como a amava. A união consumou-se em  menos de um mês e então, nos cinco anos seguintes, a vida toda tornou-se festa. Naquele início, foi Carnaval todos os dias.

Mas no quinto ano de folia, casados e sem filhos, Aurora começou a preocupar-se pensando se, algum dia, poderia levar seu rebento ao desfile como seus pais  haviam feito um dia… Todavia, aquela angústia não durou muito porque foi  substituída por outra muito, muito pior: um acidente que ceifou de Paulo a vida,  fazendo-a mergulhar em um escuro mundo construído em tons de cinza, sem  alegria e melodia. Doeu.

Foram quatro carnavais insuportáveis aqueles que se seguiram. Até que sua  mãe, já sem poder vê-la sofrer, no último ato de seu leito de morte, decidiu lhe  dar a máscara de plumas e o vestido branco, a fim de convencê-la da  efemeridade da vida – não poderia desperdiçar o seu tempo vivendo o clima de  morte, porque em breve a própria morte em si viria e a tiraria, para sempre, de  todas as cores da vida. Quando partiu, Aurora cobriu-a de plumas brancas e  prometeu que depois dali, não mais choraria.

Em celebração à memória da mãe, pulou o Carnaval seguinte procurando por  alegria e encontrou, naquela mesma rua de pedra, de frente para a casa  amarela, o seu destino: estava sentada na beira da calçada discutindo com a  tristeza quando um moço baixinho, muito diferente do primeiro marido, puxou  conversa e não tentou nenhuma gracinha. Chamava-se Lúcio, tinha trinta e  poucos anos e andava perdido. Começou a desabafar dizendo que a esposa  tinha fugido com um cantor e que desde então, se fingia de viúvo, tendo chegado,  depois de fugido da vergonha, àquela cidade estranha com a filha, Lúcia.

Tendo ouvido os conselhos de Aurora, Lúcio achou-a mulher sábia e perguntou  se ela não aceitaria exercer o ofício de babá da filha, já que poderia pagar e não  sabia mais o que fazer com a menina. Aí, então, o destino e o Carnaval sorriram  mais uma vez.

Lúcia surgiu como um raio de luz e devolveu cores aos dias cinzas de Aurora,  ensinando-a sobre o amor e a adoção. A babá, que a menina já aprendera a  tratar como mãe postiça, levou-a aos desfiles da rua de pedra e brincou com ela  diversas vezes bem ali, na sala da casa dos avós da criança, que no futuro seria a sua própria. Enquanto isso, Lúcio passava horas a observá-la, confessando  aos poucos o interesse por ela – que vinha desde o encontro na calçada, mas  que decidira disfarçar.

Não podendo mais sufocar o seu amor, declarou-se, sendo ignorado por ela. Perseverou, entristeceu-se e sofreu calado até que, pelo tempo e a  conveniência, por força do raciocínio lógico, Aurora decidiu aceitar o enlace do  casamento porque, como dizia, achava que seria o melhor para ela. Mas sempre  deixou claro: não poderia esperar paixão por parte dela.

Lúcio nunca foi um marido ruim, mas também nunca foi bom. Era só um homem  que trabalhava, sustentava, às vezes fazia alguma piada e dizia que queria o  melhor para os filhos – mas não tinha do que reclamar… Passou a vida tentando  convencer Aurora de que a amava, mas apesar de casados, ela nunca quis  aceitar: tinha medo de perdê-lo como perdeu o outro e se o amasse de verdade,  com tudo o que amor tem direito, sofreria infinitamente mais. Doía nele e doía  nela – “mas antes agora que no futuro, se você for e me deixar sozinha…”

Então, viviam mornos, os dois, aceitando o que podiam e recusando o que  achavam insuportável – mas não se largavam, pois tinham uma espécie de pacto  que julgavam maior que qualquer emoção.

Após alguns anos, já desenganada de gestar uma criança, Aurora surpreendeu se com repentina gravidez de gêmeos – um menino e uma menina, tendo esta  última morrido no parto e trazido com ela dias cinza. Mas agora, achava que não  poderia mais enlutar-se: tinha duas crianças que precisavam dela. Chamou um  padre e perguntou quem era o santo padroeiro da alegria e com a resposta,  chamou o filho de Filipe, esperando que por meio dele os céus tivessem alguma  misericórdia e devolvessem a cor de seus dias. Lúcio concordou, tendo amado  o menino como amava a ela e chorado pela menina o mesmo tanto que chorava  por ela.

Passados os anos, no auge de sua juventude, Lúcia desapareceu naquela  mesma rua de pedra, a folia, fugida com um homem mais velho. O pai ficou  destroçado. Afundou-se em álcool e custou a recuperar-se. As folias, a partir de  então, eram vividas entre Aurora e Filipe, que não aceitava faltar o bloco e vinha  sempre pedindo para ficar mais um pouco e acabou tornando-se, ele mesmo,  compositor de marchinhas. Depois, organizador do desfile. Depois, diretor de  escola de samba. Então, o Carnaval declarou-se oficialmente a tradição de  família. Filipe era Carnaval o ano todo, trazendo todo dia um arco-íris. 

Agora, idosa, Aurora já tinha netas, muitas delas, filhas das andanças e boemias  de Filipe. As meninas grudavam-se nela feito glitter depois da folia e sentia que  assim, os Céus tinham devolvido, de forma multiplicada, as filhas que perdera.  Ensinou-as a dançar pela rua de pedra e quando os tempos mudaram, suas  pernas falharam e o médico prendeu-a em casa, passou a ver da janela a folia  das meninas – como agora.

Emocionada com a avalanche de memórias e a vida que passava diante dos  olhos em musicalidade e festa, contemplou os rostos da multidão que agora  passava em frente à casa. Sentindo-se tocada pelo espírito da nostalgia,  procurou na cômoda a máscara de plumas e vestiu-a como se fosse parte de si.

Assentando-se de novo na janela, viu no reflexo o penteado feito pelas netas e  riu da vida: “Pois quem diria? Depois de tantas peças, viver o fim da vida vendo  Carnaval e festa? Deus, só me falta uma coisa” … Vendo o aproximar do fim,  aprumou-se e ergueu-se sob as pernas fracas. Viu vindo, no meio da multidão, como resposta à sua prece, um homem de cabelo branco, rosa vermelha na  mão, baixinho e esquisito como naquele primeiro dia… Saiu às portas enquanto  ele cantarolava marchinhas e esquecia-se da pobreza da vida. Dançaram juntos  naquele frenesi e viveram como antes deveriam ter vivido.

“Você me ama?”, perguntou Lúcio, enquanto sentia que ela já ia dando sinais de  despedida. “Sim, querido”, respondeu Aurora, longe dos riscos da despedida – parecia benevolente que tudo acabasse ali, na calçada onde a vida se passou e  na folia para a qual sempre quis voltar. “Pois não é justo que a inflija a mim o seu  maior medo: viver com saudade do amor…”, respondeu o marido.

Às lágrimas, foram-se os dois, em alívio, confetes e serpentina. Amor de muitos  – e especialmente de um último – Carnaval. Enquanto transeuntes se reuniam  preocupados e as netas aproximavam-se chorosas, caía da rosa o último  espinho e a multidão alegre, pelo mando irônico do destino, versava:

“Ô-ô-ô-ô, Aurora
Veja só que bom que era
Ô-ô-ô-ô, Aurora
Se você fosse sincera (…)”


CAMILA AMIZADAI é mineira, 24 anos, recém graduada em Direito pela UFJF, é alguém que, desde que aprendeu a ler e escrever, apaixonou-se pela literatura e nunca mais pôde ver a vida sem arte. Hoje, acredita que a escrita é a forma mais bonita de fazer o mundo se iluminar.

A obra que acompanha o conto é de autoria de EDSON LANDIM, cria retratos únicos da cidade do Rio de Janeiro como forma de falar sobre o lugar onde vive. Passado e presente se combinam para formar um trecho colorido da vida urbana diária, uma paisagem desordenada na qual se sobrepõem prédios, viadutos, os morros com suas comunidades, postes, cabos, a praia, seus moradores.

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